Por Walter Junio
Criado nos rincões parintinenses em meio ao maior rio de água doce do Mundo, o Amazonas, o jornalista e compositor Gerlean Brasil é autor de um dos sucessos do álbum “O Brado do Povo Guerreiro”, do Boi Caprichoso 2023. A toada, que leva seu sobrenome, “Brasil, Terra Indígena”, remete à reflexão da resistência dos povos indígenas no país, que lutam bravamente por seus direitos e terras asseguradas ante à colonização.
“Se meu direito é violado. Minha voz não calará… Ecoará (ecoará). Eu luto por justiça social. Meu canto pelo tempo… retumbará. Território indígena; Amazônia indígena. Meu Brasil indígena. Terra ancestral. Somos resistência. Pela existência. Contra a violência colonial”, diz o trecho da letra assinada em conjunto com a jornalista e historiadora Kássia Muniz e o compositor Saimon Andrade.
De acordo com Gerlean, a inspiração para compor a letra se deu pela discussão do julgamento do Marco Temporal, o Recurso Extraordinário (RE) 1017365 que discute se a data da promulgação da Constituição Federal (5/10/1988) deve ser adotada como marco temporal para definição da ocupação tradicional da terra por indígenas.
“O Marco Temporal e a série Falas da Terra, de 2020, me inspiraram. A ideia ganhou força com três palavras que sempre me despertaram interesse: resistir para existir. Também a contextualização da história do Brasil que não consta nos livros. Quando a Kássia Muniz tomou conhecimento do meu projeto, acrescentou a questão da invasão lusitana e o genocídio de milhares de nações que já habitam o país outrora quando era ‘Pindorama’. A violência aos indígenas é marcada por vários fatos como a luta de Ajuricaba, de Davi Kopenawa Yanomami, dos Waimiri Atroari, de Dom Philips, de Bruno Pereira, Galdino Pataxó, Raoni Kaiapó, Ailton Krenak, Sônia Guajajara, Célia Xacriabá, Joenia Wapichana. A colonização continua e o território tem sido destruído”, comenta o jornalista.
Gerlean Brasil cita que o próprio brasileiro comete uma “violência colonial” nos dias atuais contra os povos indígenas repetindo o clico já vivido no país nos idos de 1500. “Eu cito na toada as árvores e troncos milenares que são árvores linguísticas, tantas línguas, povos, que foram dizimados no Brasil, nesses 523 anos de colonização, e ao mesmo tempo a questão do marco temporal, que para mim é o grande divisor de águas, que é o interesse em voga. Não é uma colonização só agora do Brasil-República. A colonização continua; e muito forte”, declarou.
‘Antes da coroa existia cocar’
Em um dos pontos altos da toada, Gerlean conclama o brasileiro a fazer uma reflexão sobre o Brasil dos dias atuais.
“Antes da coroa existia o coca.r É justamente para a gente ressignificar o nosso entendimento do que é o nosso Brasil, hoje, e o que é o nosso país ancestral. A gente tem hábito, hoje, de contar a história só do que está nos livros. Muitas vezes a gente não vai aprofundar essa leitura, em busca dos significados. Eu fui pesquisar recentemente sobre os Waimiris Atroaris. Desde as primeiras investidas por exploradores nos territórios waimiris, estimam-se que mais de 50 mil indígenas ‘sumiram do mapa’. Os waimiris chegaram a um ponto no início do Século XX a ser uma população de no máximo 300 indígenas. Esse é o grande exemplo do genocídio da força brutal do progressos que passou por cima dos atroaris”, disse Gerlean.
Melhor trabalho
O compositor parintinense, que viveu a infância e juventude na comunidade do São Sebastião do Boto, na fronteira com o estado do Pará, disse que realizou o seu melhor trabalho musical da carreira em parceria com Kássia Muniz e Saimon Andrade. “Com certeza, sem dúvidas, resultado de muita leitura e pesquisa. Principalmente, com o olhar da jornalista e professora de história, Kássia Muniz e do meu amigo Saimon, que mora nos EUA. Eu passei a infância e a adolescência ao lado do meu avô que é agricultor. Morava com ele no sítio na comunidade São Sebastião do Boto, margem esquerda do Rio Amazonas. Tive uma vida ribeirinha. São vivências que me fizeram ter uma consciência em defesa dos povos tradicionais da Amazônia”, finalizou o artista.
Ouça a toada que é uma das mais ouvidas no YouTube:


























































