Diante da explosão de novos casos de Covid-19 em Manaus, o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, constatou um aumento de 36,5% no percentual de positividade de teste antígeno em Manaus, após dois grandes shows realizados na Arena da Amazônia, sendo um deles, com a distribuição de 500 ingressos pelo Governo do Amazonas. Para o cientista, as aglomerações incentivadas até mesmo pelo governo corroboraram para a explosão de novos casos de Covid-19 na capital.
“Tenho dito há dois anos que este tipo de comportamento errante e repetitivo reflete a mais cristalina certeza de impunidade. O Governo do Amazonas como, em 2020, incentivou ativamente grandes aglomerações distribuindo ingressos para quem fosse aglomerar, ao lado de quase 30 mil pessoas. Foram inacreditáveis dois shows em menos de 10 dias. Um absurdo e claro desprezo às recomendações da ciência e de saúde pública ligados a órgãos independentes. Fertiliza o terreno não apenas para explosiva disseminação viral, pois antecede as óbvias aglomerações de Natal/Ano-Novo. Fica a impressão de que a intenção era essa mesmo, diante de tantos erros encadeados no tempo”, avaliou o pesquisador da Fiocruz Amazônia.
Segundo Jesem Orellana, o percentual de positividade de testes de antígeno passou de 2,9% (01-Dez-2021) antes dos shows do Gusttavo Lima (04 de dez) e do Whindersson Nunes (11 de dez) para 36,5% (11-Jan-2022). “Aumento em quase 12 vezes. Aqui, pode ter começado a desenfreada disseminação viral, com esta imprudente sequência de shows”, diz Jesem.
O cientista aponta também para a elevação de internações por Covid-19 na capital e discorda da estratégia do governo em agir tardiamente no controle da pandemia. “O número de internações por Covid-19 dobrou em Manaus, passou de 23 (5 a 11 de Dez/2021) para 45 (5 a 11 de Jan/2022). Aumentou em 96%. Sem dúvida, novamente, agindo tardiamente e focados dentro do hospital, justamente onde é impossível controlar a epidemia. É na comunidade que se rastreia e isola contatos de casos suspeitos/confirmados, rompendo ou limitando a disseminação viral, a mesma que lota as unidades de saúde e gera mortes evitáveis.”, analisou o pesquisador.
Ômicron
Questionado se o número de casos da nova variante Ômicron é bem maior que o confirmado pelo Governo do Amazonas, que até o momento notificou apenas 21 casos, o cientista diz que Manaus pode estar com milhares de casos da temida variante. “Tínhamos 21 casos de Ômicron confirmados, ou seja podemos ter centenas ou milhares de infecções pela variante Ômicron na comunidade, já que nossa vigilância laboratorial segue sendo uma das piores do país.
Mais casos
Jesem Orellana salientou que a explosão de novos casos pode ser muito maior em Manaus.
“Pois esta estatística representa basicamente casos de pessoas que buscaram o serviço de saúde/diagnóstico laboratorial e tiveram acesso. Muitas pessoas procuram o serviço de saúde e não conseguem consulta/testagem e outra parte, ainda maior, não procura o serviço de saúde/diagnóstico laboratorial, consolidando o crítico problema da subnotificação de casos na pandemia de Covid-19. Como a Prefeitura de Manaus jamais se interessou em fazer robusta busca ativa de casos e, menos ainda, testagem em massa de forma regular, seguimos no escuro”, destacou, ressaltando o aumento dos casos. “E percebendo, novamente, o agravamento da epidemia quando o número de casos novos começa a sair do controle e quando o aumento sistemático de internações e sepultamentos se torna claro”, completou.
Temor
Jesem Orellana disse que neste cenário em que se encontra o Amazonas a comunidade científica teme o agravamento da pandemia no estado. “Primeiro, o aumento ainda maior de mortes e incontáveis casos de Covid longa (sequelas em recuperados), bem como inevitável saturação das unidades básicas de saúde e serviços de pronto-atendimento (SPA), resultando não apenas em desperdício de recursos como em disseminação viral nessas unidades de saúde; afastamento de trabalhadores de saúde e até mesmo adoecimento grave ou morte dos mesmos. Outra possibilidade, ainda que remota, é o surgimento de nova e mais ameaçadora variante de preocupação”, analisou o cientista.
Decreto
Após permitir grandes eventos em Manaus nos últimos dois meses, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC) assinou, na sexta-feira (07/01), decreto que suspende a realização de eventos de qualquer natureza com venda de ingressos em todos os municípios do estado, independentemente da quantidade de público.
A medida tem tempo indeterminado e começa a valer neste sábado (08/01) e foi tomada após recomendação do Comitê de Crise da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), em reunião extraordinária nesta sexta-feira.
No decreto, o Governo do Estado estabelece que eventos sociais de caráter privado, sem a venda de ingressos, como casamentos, aniversários, formaturas, podem ocorrer, mas limitados a 50% da capacidade do local e ao máximo de 200 pessoas. Os locais também devem seguir os protocolos de distanciamento, uso de máscara, álcool em gel e regularidade da situação vacinal.






























































