Em entrevista exclusiva ao Amazonas Hoje, o cientista da Fiocruz Amazônia, o epidemiologista Jesem Orellana, alertou para o perigoso cenário epidêmico encontrado em Manaus com o espalhamento da variante Ômicron na capital e informou que o Governo do Amazonas erra em não endurecer as medidas de combate à Covid-19 no estado diante da explosão de infecções em 2022. A análise do especialista se dá diante da classificação dada pela Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas (FVS) em colocar o estado, neste sábado (15/01), na fase laranja (risco moderado) na transmissão do novo coronavírus (SARS-CoV-2).
Para se ter uma ideia do momento epidêmico em que o Amazonas atravessa em 2022, a taxa de letalidade do dia 23 de dezembro de 2020, – quando o governador Wilson Lima anunciou uma série de medidas de restrição para frear a taxa de transmissão e o número de mortes por Covid-19 naquela época, – era de 2,64%, cujo o boletim epidemiológico registrava no dia 23 o total de 862 novos casos de Covid-19 e 9 mortes. No boletim do dia 14 de janeiro de 2022, o documento apontou a taxa de letalidade de 3,12% e o registro de 2.782 novos casos e 0 morte. Ou seja, no último dia 14 foram registrados 1.930 casos a mais que em 23 de dezembro de 2020.
“A situação é muito preocupante, com a evidente explosão de casos novos e, mais recentemente, de internações em leito clínico ou de casos graves. Para exemplificar, em 1º de Janeiro de 2022 havia apenas 21 internados por Covid-19 em Manaus. No entanto, no dia 15 de Janeiro, esse valor explode e alcança o incrível número de 210 internados, em menos de 15 dias, aumentando 10 vezes ou 1000%. Esse padrão de crescimento exponencial, fatalmente, remete aos críticos momentos da segunda quinzena de 2022, antessala do caos e das mortes por asfixia semanas depois. Portanto, não seria exagero classificar a situação sanitária como de alto risco”, comentou o especialista da Fiocruz.
Amazonas Hoje – Qual a sua avaliação diante desta decisão da FVS em classificar o Amazonas na fase apenas laranja, ou seja como “risco moderado”, diante da explosão de novos casos em Manaus e no estado?
Jesem Orellana – Esperado de um Governo que afundou o estado em duas de suas piores crises sanitárias e mostra que essas decisões são tomadas com base em qualquer coisa, menos em ciência e fatos críveis.
Amazonas Hoje – Nos dados epidemiológicos da própria FVS, ela aponta a taxa de letalidade no momento de 3,12%, o registro de 2.782 e 0 mortes no dia 14 de janeiro de 2022; sendo que esta mesma taxa em 13 de janeiro de 2021, um dia antes do colapso de oxigênio hospitalar, era de 2,68% e o registro de 1.474 novos casos e 41 mortes. Diante deste dado, a FVS não leva em consideração o perigoso cenário pandêmico no Amazonas? Qual seria a classificação ideal neste momento? A fase roxa?
Jesem Orellana – A situação é muito preocupante, com a evidente explosão de casos novos e, mais recentemente, de internações em leito clínico ou de casos graves. Para exemplificar, em 1 de janeiro de 2022, havia apenas 21 internados por Covid-19 em Manaus. No entanto, no dia 15 de Janeiro, esse valor explode e alcança o incrível número de 210 internados, em menos de 15 dias, aumentando 10 vezes ou 1000%. Esse padrão de crescimento exponencial, fatalmente, remete aos críticos momentos da segunda quinzena de 2022, antessala do caos e das mortes por asfixia semanas depois. Portanto, não seria exagero classificar a situação sanitária como de alto risco.
Amazonas Hoje – Este tipo de decisão das autoridades públicas do Estado do Amazonas vai retardar ainda mais os efeitos nocivos da pandemia, sobretudo pela espalhamento da ômicron pelo interior?
Jesem Orellana – Certamente, decisões errantes que todos conhecemos e que terminam muito mal, especialmente nos vulneráveis municípios do interior do Amazonas.
Amazonas Hoje – No boletim do dia 23 de dezembro de 2020, o governador Wilson Lima baixou um decreto (alvo de petição judicial), que iria valer a partir do dia 25 (Natal), endurecendo as medidas restritivas, sobretudo até na circulação de pessoas. No dia 23/12/2020, a FVS apontava para o registro de 862 novos casos de Covid-19, 9 mortes e uma taxa de letalidade de 2,64%. Ou seja, foram registrados 1.920 casos a mais em 14 de janeiro de 2022. Diante deste cenário acima, o governador Wilson Lima retarda propositalmente o endurecimento de medidas restritivas para frear o contágio descontrolado neste momento em Manaus?
Jesem Orellana – O indicador de maior preocupação é sempre o de casos novos, mas como estamos em estágio vacinal, deveríamos também levar em conta, eventuais e não esperados aumentos nas internações ou casos graves. Este é exatamente o caso de Manaus e é por isso que o Governo do Amazonas, mais uma vez, erra ao não endurecer as medidas restritivas para frear o contágio descontrolado do novo coronavírus.
Amazonas Hoje – Quais os efeitos de não se tomar decisões mais energéticas no momento?
Jesem Orellana – Gastos evitáveis em plena crise, exaustão da rede assistencial, em especial dos maltratados trabalhadores de saúde, bem como mais casos de Covid longa, mais casos de Covid grave que geram internações e mortes evitáveis. Mas, está claro que a preocupação não é salvar vidas e sim contar mortos, no laboratório a céu aberto chamado Manaus.
Amazonas Hoje – Quais as medidas seriam necessárias neste momento para conter o pico de adoecimento e novas infecções?
Jesem Orellana – Um conjunto de medidas restritivas a circulação de pessoas e fortalecimento robusto e continuado da vigilância epidemiológica.
Amazonas Hoje – O Governo do Amazonas pela terceira vez seguida erra na condução da pandemia?
Jesem Orellana – Sim e sem o menor pudor, em plena e violenta retomada da terceira onda de Covid-19, pois o primeiro pico parece ter sido em julho/agosto de 2021, momento em que, inclusive, foram decretadas restrições que não estamos vendo agora, como a restrição de circulação de pessoas durante a madrugada.
Amazonas Hoje – Manaus poderá repetir o que aconteceu nos dias 14 e 15, e ao longo do mês de janeiro de 2021, com mortes e internações graves?
Jesem Orellana – Pouquíssimo provável, ao menos com as mesmas proporções e drama da falta de oxigênio. No entanto, caso nada de consistente seja feito, podemos ter graves e incontornáveis problemas, ainda em janeiro de 2022.
Amazonas Hoje – O que tem poupado os moradores de Manaus e do Amazonas neste momento de um cenário ainda mais fatal é a vacina?
Jesem Orellana – Sim, as vacinas estão segurando o caos, resta saber até quando e se não estamos “gestando” uma nova e mais aterradora variante de preocupação, diante de tão brutal disseminação viral, nas duas primeiras semanas de 2022. Também podemos estar testemunhando, pela primeira vez, a face mais avassaladora e cruel da Ômicron, em cenário de evidente e insistente negligência sanitária.


























































