O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), analisou 15 anos de medições aéreas de dióxido de carbono (CO₂) na Amazônia brasileira e identificou que as atividades humanas, especialmente o desmatamento e as queimadas, dominam as emissões de carbono na maioria dos anos analisados. Já as condições climáticas extremas amplificam esses impactos.
O trabalho evidencia o enfraquecimento da capacidade da Amazônia de absorver carbono da atmosfera. A redução da cobertura florestal e a degradação da floresta comprometem o regime de chuvas, elevam as temperaturas e prolongam a estação seca, tornando a vegetação remanescente mais vulnerável à mortalidade de árvores e ao fogo.
Nesse cenário, as mudanças climáticas regionais e fenômenos de grande escala, como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, intensificam os efeitos das atividades humanas sobre a floresta.
O estudo, liderado por Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe, será publicado em 21 de outubro na revista científica Nature. A pesquisa também conta com a contribuição de outros pesquisadores do Inpe, além de cientistas nacionais e internacionais.
ANÁLISE — Para investigar os fatores que influenciam as emissões de carbono da Amazônia, a equipe utilizou dados coletados entre 2010 e 2024 por meio de voos em aviões de pequeno porte quantificação de CO₂ e CO no LaGEE (Laboratório de Gases de Efeito Estufa), do Inpe, em São José dos Campos (SP).
As coletas foram realizadas em quatro localidades na Amazônia brasileira, abrangendo 100% da região. A análise combinou as medições de carbono com dados de desmatamento e queimadas, precipitação, temperatura do ar e indicadores de temperatura da superfície do mar (ONI) na região equatorial do Oceano Pacífico e no Oceano Atlântico Tropical Norte (TNA).
Em média, ao longo de 15 anos, o balanço de carbono da Amazônia foi de 0,32 PgC/ano, o que equivale a 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. As queimadas constituíram a principal fonte de carbono, com emissões médias de 0,40 PgC/ano, o que equivale a 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano.
A absorção de carbono pela floresta, por sua vez, não foi suficiente para compensar essas emissões, que totalizaram cerca de 300 milhões de toneladas de CO₂ por ano. GRUPOS — A análise estatística identificou três grupos de anos com características distintas em relação à precipitação, à temperatura, à intensidade das atividades humanas e às emissões de carbono.
A comparação entre eles permitiu separar os efeitos das condições climáticas daqueles associados ao desmatamento e às queimadas.
Grupo 1: formado por 2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018, esse grupo apresentou as condições climáticas mais favoráveis entre os três. A precipitação média anual foi de 2.413 milímetros, com 135 milímetros no pico da estação seca, entre agosto e outubro, e a temperatura média nesse mesmo período foi de 26,2 °C. Também foram registrados os menores níveis de atividade humana entre os grupos, com desmatamento médio de 6.389 km² e área queimada de 55.115 km² (considerando todos os tipos de vegetação queimados).
Nesse conjunto de anos, o balanço de carbono foi de 0,11 PgC/ano, indicando um impacto menor da Amazônia no balanço global de carbono, em comparação aos demais grupos.
Grupo 2: compreendendo os anos de 2019, 2020, 2021 e 2022, esse grupo apresentou um aumento de 97% no desmatamento (12.580 km²) e de 25% na área queimada (68.747 km²) em relação ao Grupo 1.
As emissões de carbono aumentaram em 391%, alcançando um balanço médio de 0,43 PgC/ano, equivalente a aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. Esse aumento ocorreu em condições de baixo estresse climático, em comparação com os demais grupos.
A precipitação média anual foi de 2.280 milímetros, com 132 milímetros no pico da estação seca, e a temperatura média neste período foi de 26,3 °C, próxima à registrada no Grupo 1.
O resultado evidencia o peso das atividades humanas sobre as emissões de carbono: mesmo sem as condições de seca extrema observadas em outros anos, o aumento do desmatamento e das queimadas foi acompanhado por uma elevação expressiva das emissões.
Nesse grupo, as ações humanas dominaram o balanço de carbono. Grupo 3: reúne 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos marcados por condições climáticas extremas, associadas a fenômenos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte.
A precipitação anual média foi de 2.105 milímetros e, no pico da estação seca, de 111 milímetros, com temperatura média de 27,3 °C, a mais alta entre os três grupos.
Nesse período, houve um aumento de 92% na área queimada (105.819 km²) e de 22% no desmatamento (7.812 km²).
O balanço médio de carbono atingiu 0,49 PgC/ano, equivalente a 1,80 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, o maior valor entre os grupos. Embora as condições climáticas extremas tenham contribuído para agravar as emissões, o estudo identificou que as atividades humanas continuaram a ser o fator dominante.
As queimadas, associadas em 98% à ação humana, e o desmatamento atuaram em conjunto com a seca, ampliando os impactos sobre a floresta.
MUDANÇA DO CLIMA — Além de identificar os fatores associados às emissões, a pesquisa evidencia mudanças nas condições climáticas da região ao longo das últimas décadas. Nos últimos 46 anos, o desmatamento e a degradação de longo prazo na Amazônia reduziram a precipitação anual em 8% e, durante o pico da estação seca, entre agosto e outubro, em 20%. No mesmo período, a temperatura média anual aumentou 1,13 °C, enquanto o pico da estação seca, a elevação chegou a 1,81 °C.
Essas alterações comprometem as condições necessárias à manutenção da floresta tropical úmida e contribuem para um ciclo de retroalimentação: a perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, favorecendo novas queimadas e ampliando a degradação da floresta remanescente.
CONCLUSÃO — Segundo o Inpe, os resultados mostram que a atividade humana e o estresse climático não atuam de forma isolada. Ao contrário, seus efeitos se intensificam mutuamente. Por isso, o estudo conclui que a redução das emissões exige não apenas a diminuição do desmatamento, mas também o combate ao uso do fogo, tanto no manejo da terra quanto em sua utilização como forma de desmatamento, além da recuperação de áreas degradadas.























































