Por Alberto Jorge*
O prefeito de Manaus, David Almeida, encontrou o bode expiatório para a botar a culpa pela terceira onda de Covid-19: “os criminosos pagodeiros, forrozeiros e frequentadores de festas noturnas de Manaus”.
Essa foi a resposta, em declaração infeliz dada à jornalista do Portal Radar Amazônico, Anny Margareth.
Um flagrante caso de racismo linguístico, pois associa o pagode (manifestação cultural da população negra) com bandidagem, marginalidade, criminalidade.
Para o prefeito, a proibição de aglomerações não vale para as ações de saúde. Apoiado no clássico JARGÃO IMORAL DE QUE OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS.
A proibição de aglomerações só vale para festas e eventos culturais, festas de aniversário, casamento e de lazer.
Nos casos de AGLOMERAÇÕES EM NOME DA SAÚDE, PODE! (SIC).
Sem se perceber o prefeito, (que tem formação de pastor evangélico), repetiu a velha tradição judaica, em que um bode era apartado do rebanho e deixado só na natureza selvagem como parte das cerimônias hebraicas do Yom Kippur, o Dia da Expiação, na época do Templo de Jerusalém. Este rito é descrito na Bíblia no livro do Levítico.
O bode expiatório era um bode usado no Antigo Testamento para levar simbolicamente os pecados do povo de Israel para longe. Isso acontecia uma vez por ano, no Dia da Expiação.
Desde o início da Pandemia, essa alegação fajuta tem sido usada para demonizar os eventos, enquanto o verdadeiro problema corre solto, sob o olhar obsequioso do Ministério Público.
Para o Prefeito de Manaus, O CRIME de “pagodear”, “forrozar” é pior e mais letal que o sistema de transporte urbano, com ônibus lotados, que transportam, sem distanciamento, sem respeitar as normas de segurança, cerca de 900 mil manauaras por dia. Talvez por mau assessoramento técnico, David Almeida também desconsiderou as lotações descontroladas e toleradas das praças de alimentação dos shoppings, das igrejas e templos, agências bancárias, bem como o comércio em geral.
Fico a me perguntar: se terá o prefeito perdido a capacidade de fazer uma simples operação de aritmética, ao comparar seis mil com seiscentos?
Juntemos por uma semana todos os “criminosos” pagodeiros, forrozeiros e notívagos de Manaus, e não teremos um quantitativo superior ao fluxo de um dia do transporte urbano.
A justificativa amarela de que para promover a ação preventiva de Saúde é aceitável a aglomeração de pessoas em busca de testes e atendimento para Covid-19, ofende o bom senso.
A falta de testes, a limitação do número de atendimentos nas Unidades Básicas de Atendimento, somente mostram a incapacidade administrativa de gestores da Saúde na esfera municipal.
O Pesquisador da Fiocruz, Dr. Jesem Orellana, passou meses a fio alertando as autoridades e a população manauara, que se estava correndo esse risco iminente de uma explosão de casos de Covid entre o final de 2021 e início de 2022.
Mas o que o prefeito preferiu fazer nos três últimos meses de 2021?
Não restringiu a circulação da população, em nome do respeito à tradição das festas de fim de ano e da arrecadação tributária, simplesmente deixou a coisa acontecer.
Um outro erro crasso foi não ter reforçado com estrutura devida e contratação de pessoal, o atendimento municipal de Saúde.
Concentrar, hoje, o atendimento aos suspeitos de contágio por Covid em dois grandes pontos enquanto nas UBSs o atendimento está capenga, por conta da falta de testes,, de profissionais de Saúde, é de uma estupidez sem precedentes!
Não será encontrando bodes expiatórios que o prefeito David Almeida justificará a deficiência gritante na Rede de Atenção Básica de Saúde, e a terceira onda de Covid em Manaus.
É fato: A população está indignada e isso deverá repercutir nas eleições de outubro próximo!
Os pagodeiros, forrozeiros e frequentadores da noite, que apoiaram a eleição de David não escondem a decepção e a indignação com aquele para quem sufragaram seus votos.
Em ano eleitoral, isso equivale a dar um tiro no próprio pé, no momento em que quem precisa estar bem na foto, precisa correr.
É o que penso!
Axɔ́súxwé Mina Gɛgi Fɔn Vodún Xɛ́byosɔ Toy Gbadɛ́, Manaus, AM, 20 de Janeiro de 2022
Xɛ́byosɔnɔ̀ Alberto Jorge Silva Ọba Méjì
Um cidadão negro indignado com a MARGINALIZAÇÃO do pagode, que é parte da riqueza cultural negra.
(*) Alberto Jorge – Xɛ́byosɔnɔ̀n Alberto Jorge Silva Ọba Méjì
Nascido em 26 de Abril de 1960 em Manaus, AM;
Dotɛ́ do Xwɛgbɛ́ Xwɛgbɛ́ Acɛ́ Mina Gɛgi Fɔn Vodún Xɛ́byosɔ Toy Gbadɛ́
Coordenador Geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana – ARATRAMA
Fundador e Mantenedor da Associação de Desenvolvimento Sócio Cultural Toy Badé
Formação – Com formação em Filosofia e Teologia pelo Centro de Estudos do Comportamento Humano – CENESCH; Radialista; Psicólogo Clínico Especialista; Doutorando em Psicologia Evolutiva e da Educação.
É Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais do Amazonas; Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Amazonas; Ex Conselheiro Estadual de Saúde do Amazonas; Ex Conselheiro Municipal de Saúde de Manaus;
Membro do Comitê de Saúde LGBT do Amazonas; pesquisador da Étnocultura dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana; militante há 35 anos nos Movimentos de Negritude, dos Povos Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana, de Defesa, Conservação e Preservação do Meio Ambiente; e de Direitos Humanos.
As informações neste artigo são de responsabilidade do autor.



























































