Por Fabiane Morais*
‘Tudo que vai, volta. Isso não é filosofia. É a física que rege o Universo”. A frase do terapeuta quântico Hélio Couto descreve o resultado do comportamento de parte da população manauara que ainda insiste no descarte de resíduos em locais inapropriados como igarapés e rios e que causam prejuízos a curto, médio e longo prazos à natureza. A terceira Lei de Newton também é clara ao afirmar que toda ação, boa ou ruim, gera uma reação de igual intensidade.
Dessa forma, a vida real traz de volta tudo que emanamos e com o lixo descartado não é diferente. Isso porque, ele irá retornar aos lares de onde foi arremessado, no período de cheia dos rios, expondo o nível de consciência de quem o descarta e a Lei da física, que se aplica a todos os seres humanos.
Mesmo com o instinto de preservação à natureza, a ausência de conscientização de parte da população se traduz em quantitativos e assustadores dados em relação à poluição de igarapés, por exemplo. Segundo a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), por dia, aproximadamente 35 toneladas de lixo são retiradas da orla e igarapés de Manaus. Entre os principais itens retirados das águas são garrafas PETs, carcaças de geladeiras, fogões, lavadoras e até pedaços de sofá e cama.
“O acúmulo de lixo, hoje, é tão grande, que já chegaram a tirar sete toneladas de lixo por semana em um dos igarapés, aqui, de Manaus. Então, é tão absurdo esse lixo, que ele não consegue dar vazão e se prende aí na metade das áreas que têm, por exemplo, os cursos de igarapés menores. A gente tem o Tarumã, que é um exemplo disso. Tem muito material acumulado ali na boca dele exatamente porque ele não tem vazão. E, ele demora muito tempo para conseguir sumir do ambiente. Se a gente não descarta num local, que não é o ideal, ele com certeza vai ficar ali acumulado em algum lugar; ou se não seja nessas bocas ou na beira de um igarapé, em algum lugar que ele consiga encontrar uma parada, como uma árvore, por exemplo. E, na cheia é até pior porque vai subindo o rio e o lixo vem sendo trazido”, explica a engenheira ambiental Fabiana Rocha.
De acordo com Fabiana, o descarte de efluentes e dejetos em locais inapropriados impacta a qualidade da água e do solo nas áreas alagadiças de Manaus, colocando em risco espécies e até o próprio ser humano.
“Quando se fala em descarte de lixo em locais impróprios, como é o caso de rios, igarapés, ruas, toda a gente que faz esse tipo de coisa, na verdade, já está ferindo uma resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), de 1986, que fala que toda vez que você provoca qualquer tipo de alteração no meio ambiente, ele basicamente pode alterar a saúde, segurança e bem-estar da população; a biota, porque você está falando dos componentes do ambiente de uma forma geral; além das condições estéticas e sanitárias , e uma série de consequências como é o caso das doenças”, explicou Fabiana, informando que o lixo jogado nos igarapés gera consequências drásticas ao ambiente aquático.
“Você está falando de eutrofização que é o aumento quantitativo de nutrientes nas águas; na verdade, toda vez que isso acontece, vai gerar uma quantidade de material, de elementos na água que vão ocasionar uma série de consequências, e aí você está falando de mortalidade de peixes, de elementos da água que não fazem bem; ainda mais se forem de uma certa forma absorvidos pelo ser humano. E, isso basicamente das bactérias, que na maior parte das vezes, acabam provocando essa quantidade de morte em várias espécies, não só de peixes, como das plantas que estão no entorno”, completou a engenheira ambiental.
Descarte consciente
Fabiana destaca que se o descarte fosse realizado em local apropriado, todos os organismos existentes na água e no solo seriam devidamente preservados.
“Não tendo lixo sobre as águas, você não vai gerar uma série de consequências que são respostas muitas vezes químicas ou ambientes. Então, você tem o controle aí de todos os organismos e microorganismos presentes na água e no solo, porque a gente tem de lembrar que quando é na água, o impacto não é apenas na água, o impacto também é nosso solo. E, aí a gente tem uma série de problemas também no solo. Mas basicamente na água, você tem perda de espécies quando é provocado. Se você não joga (lixo), perfeito, as espécies vão continuar ali, a manutenção das águas vai ficar super bem; então a parte química e a biológica vão se manter”, disse a docente.
Água tratada
Embora todos estejamos sob a Lei da Física, que parte do princípio de que “tudo que vai, volta”, iniciativas como da concessionária Água de Manaus garantem o retorno da água tratada de volta a todos os lares, após coleta no rio Negro. Conforme explicou o gerente de Responsabilidade Social da Águas de Manaus, Semy Ferraz, ainda que o lixo seja descartado no ambiente aquático, a ação danosa à natureza não interfere na captação da água nas estações de tratamento no rio Negro.

“A poluição dos igarapés, principalmente, com plásticos, com resíduos sólidos, que são visíveis, ela não tem interferência na água que nós coletamos e disponibilizamos para a cidade. Porque a nossa captação de água superficial é toda no rio Negro. Nós temos a ETA (Estação de Tratamento de Água) 1 e ETA 2, que é ali na Compensa; temos a ETA Mauazinho, no bairro Mauazinho, e a ETA Ponta das Lajes, que atende prioritariamente a Zona Leste. E mais 50 poços. Então, as poluições dos igarapés não interferem na água que nós tratamos e coletamos e distribuímos para a cidade”, explicou, completando. “Mas por outro lado é um aspecto ruim, você ter visível a presença do lixo, dos resíduos. A própria prefeitura gasta um dinheiro enorme para fazer a limpeza dos igarapés, que com a presença muito grande do plástico, que acaba indo para o rio Negro também”, disse Semy.
O gerente informou ainda que a empresa investiu cerca de R$ 1 bilhão no tratamento e na expansão da rede de água e esgoto em Manaus. “Aumentamos a reserva de água, construímos cinco grandes reservatórios, eliminando a falta da água em várias regiões, com reforço e ampliação de rede. E, atendemos também aquelas regiões que não eram atendidas regularmente pela concessionaria, que eram os moradores de becos, palafitas, rip raps. Mais de 130 mil pessoas, mais de 150 quilômetros de rede, que foram executados através de rede aéreas, rede de concreto, garantindo a qualidade da água em todos os cantos de Manaus”.

Entre os investimentos, está o projeto piloto em fase de implantação no beco Nonato, no bairro Cachoeirinha, zona sul de Manaus, e que, a partir de 2023, vai garantir que comunitários residentes em palafitas sejam interligados à rede de esgotamento sanitário. Segundo a Águas de Manaus, todos os resíduos líquidos coletados no beco vão ser direcionados à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Educandos, onde passará por todos os processos de tratamento e desinfecção até o rio Negro. “É um projeto piloto que estamos executando em Manaus. Nos últimos anos, desenvolvemos algumas tecnologias e soluções que garantiram a chegada da água tratada em diversas regiões vulneráveis da cidade. Nos tornamos referência nisso para o Brasil. E, agora, queremos iniciar um novo passo, trabalhando também com o esgotamento sanitário”, declarou o diretor-presidente da concessionária, Diego Dal Magro.

De acordo com a aposentada Maria Yvone da Silva Oliveira, 67, o projeto no Beco Nonato vai levar benefício aos moradores, semelhante ao ocorrido com a instalação da rede de água encanada na área, substituindo as ligações irregulares.
“A encanação de água antiga aterrou na lama com o tempo. Um dia, o meu cano quebrou, aí meu marido precisou cavar para ver se achava. Isso dá uma ideia do quanto era difícil ter acesso à água. Hoje, não bebemos mais água com um cano metido na lama. Em relação ao esgoto, também vai ser bom. A gente precisa lidar com o mau cheiro, com as doenças, o acúmulo de lixo. Meus netos todos já caíram nesse igarapé, imagina o perigo”, disse a idosa.
Descarte
No mês passado, a prefeitura, por meio da Semulsp, retirou cerca de 400 toneladas de resíduos retirados dos rios e igarapés de Manaus. Segundo a secretaria, o material recolhido das orlas foi transportado do porto Trairi, no bairro Santo Antônio, zona Oeste, até o Aterro Sanitário Municipal, localizado no quilômetro 19, AM–010 (Manaus – Itacoatiara).
(*) Matéria veiculada simultaneamente no Portal Amazonas Hoje (www.amazonashoje.com.br) e no Jornal A Crítica.























































