Por Walter Junio
O Recanto de Preta Mina chega aos 53 anos de história, nesta quinta-feira (19/03), Dia de São José, como uma referência de fé, acolhimento e resistência cultural em Manaus.
Desde a década de 1970, o bairro Educandos, zona Sul de Manaus, recebeu centenas de filhos, de consulentes, e demais simpatizantes, que presenciaram de perto a potência do axé da casa sagrada, que durante todo o período, tem sido um braço social importante na comunidade, sobretudo aos hipossuficientes.
Em entrevista ao Amazonas Hoje, o líder do terreiro e pai de santo Tata Zazi Adalberto Nunes destacou a importância da trajetória construída ao lado dos filhos de santo, relembrou momentos marcantes vividos dentro da casa e ressaltou o papel do terreiro na preservação da identidade afro-amazônica.
Segundo ele, o espaço vai além da dimensão religiosa, atuando também no apoio comunitário, no combate ao preconceito e na promoção de ações sociais e educativas voltadas à população mais vulnerável.
Ao longo da conversa, Pai Adalberto também falou sobre o acolhimento oferecido às pessoas que procuram o terreiro em busca de direção espiritual, destacou a força das redes sociais na democratização do conhecimento sobre as religiões de matriz africana e reforçou a missão do Recanto de Preta Mina como guardião de saberes ancestrais.
Confira a entrevista:
Amazonas Hoje – Chegar aos 53 anos de história é uma conquista importante. Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os filhos de santo e para todos que fazem parte da trajetória do Recanto de Preta Mina?
Pai Adalberto – A todos os meus filhos de santo: obrigado pela dedicação, pela firmeza, pela responsabilidade e pelo amor colocado em cada detalhe. Vocês honraram o nome da nossa Casa. Minha gratidão é imensa por cada filho de santo que caminha comigo. Obrigado pela entrega, pela dedicação e por vestirem a camisa da nossa fé. Vocês são o orgulho do meu coração. Que a espiritualidade esteja sempre guiando seus passos.
Amazonas Hoje – Pai Adalberto, ao longo de mais de cinco décadas de história do Recanto de Preta Mina, quais foram os momentos mais marcantes ou espiritualmente mais fortes que o senhor já viveu dentro da casa?
Pai Adalberto – Foi quando pude realizar a feitura, a iniciação, do meu filho de criação, que hoje é um babalorixá, filho do guerreiro Ogum. E minha neta, que hoje, no sagrado, é minha filha de santo, cuja cabeça é regida por Xangô, o mesmo que carrego e dono da Casa.
Amazonas Hoje – Manaus é uma cidade marcada pela diversidade cultural e religiosa. Na sua visão, qual é o papel de um terreiro tradicional como o Recanto de Preta Mina na preservação da cultura afro-amazônica?
Pai Adalberto – Na minha visão, o terreiro Recanto de Preta Mina, tradicional na Amazônia, atua como um núcleo de resistência, memória viva e sincretismo entre as matrizes africanas e indígenas, realizando diversas atividades sociais e acolhimento com a população carente e comunidades ao redor. Ele transcende o aspecto estritamente religioso, posicionando-se como um guardião cultural fundamental para a manutenção da identidade afro-amazônica.
Amazonas Hoje – Muitas pessoas procuram os terreiros em momentos difíceis da vida. Qual é a principal orientação espiritual que o senhor costuma dar para quem chega pela primeira vez buscando ajuda ou direção?
Pai Adalberto – Antes de tudo, procuramos realizar o acolhimento e ouvir sua dor, sua queixa e o que a levou até nossa casa. Após essa conversa, vamos realizar o atendimento que for melhor, para uma consulta adequada, resolutiva e apropriada ao visitante ou cliente. Realizamos também uma conversa sobre nossos cuidados e acompanhamento durante tudo o que for realizado junto à casa.
Amazonas Hoje – Nos últimos anos, a internet e as redes sociais passaram a aproximar mais as pessoas das religiões de matriz africana. Como o senhor enxerga essa nova forma de divulgar e fortalecer a espiritualidade?
Pai Adalberto – A utilização da internet e das redes sociais pelas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, é vista como uma ferramenta poderosa de resistência, democratização do conhecimento e combate ao preconceito. Essa nova forma de divulgação transforma o ambiente virtual em uma extensão do terreiro, permitindo que a espiritualidade se fortaleça e chegue a um público mais amplo, especialmente aos jovens.
Os principais pontos sobre como essa presença digital tem moldado a espiritualidade são: combate à intolerância e desmistificação; difusão de conhecimento e oralidade; criação de “cyberterreiros”; fortalecimento da identidade; interação e acesso.
Amazonas Hoje – Quais trabalhos o Preta Mina desenvolve na área social?
Pai Adalberto – Giras de atendimento: sessões públicas onde entidades trazem mensagens e conselhos, com orientações espirituais.
Passe e limpeza energética: rituais para reequilibrar o campo energético e remover influências negativas.
Linhas de trabalho: atuações de caboclos, com força e cura; pretos-velhos, com sabedoria; crianças/erês, com alegria; exus e pombagiras, com proteção e abertura de caminhos; e linha de cura.
Desenvolvimento mediúnico: aulas e rituais para médiuns da casa.
Oferendas e rituais específicos: trabalhos para abertura de caminhos e harmonia familiar.
Amazonas Hoje – Além da área espiritual, que outras ações sociais o Recanto de Preta Mina desenvolve?
Pai Adalberto – Pretagogias e educação: o terreiro atua como um “terreiro-escola”, focado na preservação e no ensino das tradições espirituais de origem africana, utilizando escrevivências para registrar sua história e fortalecer a identidade cultural local.
Apoio comunitário e segurança alimentar: o Recanto de Preta Mina recebe apoio de iniciativas como o Unisocial, que auxilia terreiros em ações sociais de distribuição de alimentos e suporte a comunidades vulneráveis em Manaus.
Identidade afro-indígena: a instituição destaca-se por trabalhar as alteridades e as relações afro-indígenas no Amazonas, promovendo o diálogo entre diferentes saberes ancestrais.
Resistência cultural e religiosa: sob o comando de Pai Adalberto de Xangô, o terreiro atua na manutenção da memória e na luta contra o preconceito religioso, funcionando como um ponto de resistência e acolhimento no bairro Educandos.
Conheça a história do Preta Mina
Sob o comando de Pai Adalberto de Xangô, Terreiro Preta Mina completa 51 anos em Manaus
























































