Por Jesem Orellana*
Recente análise de Marcelo Neri (FGV-BR) documentou o que temos visto a olho nu: o crescente aumento da insegurança alimentar no Brasil, sobretudo entre os mais vulneráveis.
Um fato escancarado nas filas para compra de ossos e carnes de menor qualidade, no aumento da mendicância em ruas e semáforos, bem como no desespero de mães desempregadas ou desumanamente remuneradas, em cenário de corrosiva inflação e de uma pandemia que resultou em cerca de 670 mil mortes diretas por COVID-19.
Assim vai terminando o pífio mandato do Bolsonaro, com o aumento da falta de comida na mesa dos mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, incluindo a insensível turma do agronegócio e do garimpo ilegal, que destroem a Amazônia e o pouco que restou da Mata Atlântica, por exemplo.
O duro e realista estudo mostra que nos mais pobres, a insegurança alimentar é de quase 80%, especialmente nas mulheres de 30-49 anos. Coincidência ou não, nas mulheres de 30-59 anos da Região Norte dramaticamente afetada na pandemia, também foi observado excesso de suicídios, como possível fruto do mais amargo desgosto, entre outras causas, de não se ter um prato de comida digno para oferecer aos seus filhos.
Aliás, as crescentes e evitáveis mortes mediante vacinação disponível no SUS e a recente notificação de um caso de sarampo no Amazonas voltaram a fazer parte do nosso infeliz cotidiano, devido à criminosa narrativa antivacina que tomou conta do país.
Infelizmente, esse é o trágico saldo da ingênua aventura do brasileiro nas urnas em 2018: fome, desemprego, crise sanitária e econômica, além de inédita e tóxica crise dentro e entre a classe política ou judiciário.
Certamente, precisávamos de mudanças em 2018. No entanto, pioramos a situação e podemos reparar esse erro nas eleições de 2022. Só há uma forma de mudar, olhando para a realidade e colocando no comando quem tem experiência e conhece não só as necessidades do país como um todo, mas que também sabe dialogar e encontrar soluções para velhos e novos desafios.
Precisamos não de um salvador da pátria e da honra, mas de pessoas capazes de devolverem o protagonismo aos brasileiros do mundo real, em especial aos mais pobres. Vamos dar um basta na covardia de discutir o Brasil e nas fugas de debates públicos, nas condenáveis bravatas e ataques à democracia e de desculpas e culpabilizações que escondem, inutilmente, outro fato, a incompetência do Bolsonaro e de seus aliados no gerenciamento do Brasil.
Se queremos voltar a sonhar, achatando as desigualdades socioeconômicas e sanitárias, a fome e a mortandade evitável, precisamos de mudanças que apontem para além dos resultados positivos e, muitas vezes desleais, do viciado sistema financeiro ou dos lucros de grandes empresários, sobretudo àqueles ligados ao insensível agronegócio que oferece carne de alto padrão para os gringos e osso para os brasileiros ou soja para porcos de granja da China e “sopa de pedra”, cozida em fogão à lenha, para os brasileiros.
Precisamos voltar a dividir nossas riquezas de forma menos injusta, como há poucos anos atrás.
Precisamos de mais indígenas e negros nas universidades, de mais dignidade para o trabalhador, de mais cultura e valorização da ciência e menos fake news. Precisamos devolver a camisa da seleção brasileira ao povo e não a uma parcela da sociedade que enterrou nosso sorriso e orgulho pela amarelinha, dando vida ao ódio e ao permanente estado de tensão, agressividade e desprezo pelo esporte e pela democracia.
O brasileiro precisa voltar a sonhar e o país precisa voltar a crescer, em níveis compatíveis com suas grandes riquezas e com a garra do seu povo.
(*) Jesem Orellana – Jesem Orellana é epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz desde 2006, tem graduação em Enfermagem, mestrado em Saúde Pública e doutorado em Epidemiologia. É revisor de periódicos nacionais e internacionais e tem artigos e capítulos de livro publicados em diversas revistas e editoras do Brasil e do exterior. Também tem atuado, desde fevereiro de 2020, em projetos, consultorias e produção de diferentes materiais de cunho científico sobre a epidemia de COVID-19 no Brasil, em especial em Manaus, além de ter fornecido centenas de entrevistas para a imprensa nacional e internacional.
As informações neste artigo são de responsabilidade do autor.





























































